A sabedoria do xamã
Era um dia de verão escaldante – um dos muitos que se tornaram cada vez mais frequentes ultimamente, forçando impiedosamente as pessoas do Vale do Búfalo Branco a buscar refúgio na sombra. Pelo canto do olho, eu observava a devastadora seca que assolava nossa terra. Ao mesmo tempo, sentia minha sede aumentar de hora em hora. Desde o dia anterior, até as últimas fontes haviam secado, e a língua de todo o meu povo grudava ressequida no céu da boca. A cada hora, ficávamos mais inquietos. Para piorar ainda mais a situação, a guerra tribal mais recente havia feito centenas de vítimas pouco tempo antes. Como tantos conflitos anteriores, este também surgira por um motivo insignificante e custara inúmeras vidas humanas. Mas, desta vez, a longa seca parecia um castigo – um castigo pelo nosso comportamento para com as pessoas e a natureza, pelo derramamento inútil de sangue e pela falta de respeito com os recursos da nossa outrora tão maravilhosa Mãe Terra. Embora eu fosse apenas uma jovem indígena, naquele momento compreendi que aquilo não podia continuar assim. Se nada mudasse, nosso povo logo morreria uma morte dolorosa. De repente, um pensamento me atingiu como um raio em céu azul. Ao lado de uma fonte seca havia uma única pena e, enquanto meu olhar repousava sobre ela, perguntei-me por que não havia encontrado a solução muito antes. Precisávamos pedir ajuda ao espírito do nosso chefe falecido, "Pena Branca". Em vida, ele não havia sido apenas o nosso líder tribal, mas também um xamã sábio e poderoso. Seus conselhos sempre haviam orientado nosso povo. Ele falava de uma alma onisciente que compreendia que toda a vida nesta Terra estava interligada e que nada podia existir sem o restante. Com minhas últimas forças, arrastei-me até a cabana de minha avó. Lá, ela guardava o crânio do venerado xamã para que sua memória jamais desaparecesse. Silenciosamente, aproximei-me na ponta dos pés, peguei cuidadosamente o crânio e o escondi sob minha veste. Em seguida, retirei de minha mais preciosa caixa de joias uma grande pena branca de águia – a mesma pena à qual o chefe "Pena Branca" devia seu nome. Nosso povo havia chegado a um ponto em que já não encontrava saída por conta própria. A destruição da natureza alcançara uma dimensão que não podia mais ser ignorada. Se alguém ainda podia nos ajudar, era o sábio xamã "Pena Branca" – mesmo que já não estivesse entre os vivos havia muito tempo. Em segredo, retirei-me para um pequeno bosque ressequido que até então ainda resistira ao calor implacável. Ali iniciei meu ritual com profunda reverência. Segurava cuidadosamente o crânio em minhas mãos enquanto desenhava círculos cada vez maiores no ar com a grande pena branca de águia. Com toda a minha concentração, tentei estabelecer contato com o espírito do nosso antigo chefe. Quanto mais eu me concentrava no ritual, mais intensa se tornava a estranha sensação dentro de mim. De repente, um profundo zumbido encheu minha cabeça. Então aconteceu algo inacreditável. Diante dos meus olhos, o ar começou a cintilar. O ambiente tornou-se difuso, como se a própria realidade estivesse mudando de forma. Do nada surgiu uma aparição translúcida que lentamente se tornou mais nítida. Com o coração acelerado, reconheci os traços familiares do nosso chefe falecido. Pena Branca. Seu espírito pairava a poucos passos de mim. Uma luz suave o envolvia, e seus olhos irradiavam uma serenidade e uma sabedoria que expulsavam todo o medo do meu coração.
“Grande xamã”, sussurrei respeitosamente, ajoelhando-me diante dele. “Nosso povo sofre. As fontes secaram, os animais estão desaparecendo e as pessoas lutam umas contra as outras. Por favor, ajude-nos.”
O espírito me observou longamente em silêncio. Por fim, falou com uma voz que parecia ao mesmo tempo distante e próxima:
“Minha filha, a Terra não está castigando vocês.”
Confusa, ergui o olhar.
“Mas por que tudo isso está acontecendo?”, perguntei. “Por que temos de sofrer tanto?”
Pena Branca abaixou a cabeça.
“Porque as pessoas esqueceram quem realmente são.”
Suas palavras ecoaram dentro de mim.
“Vocês se veem como senhores da natureza, embora façam parte dela. Vocês tiram mais do que precisam. Lutam uns contra os outros como se estivessem separados. Mas toda a vida está interligada.”
Ele ergueu lentamente a mão. No mesmo instante, imagens surgiram diante dos meus olhos. Vi florestas imensas estendendo-se pela terra. Rios cristalinos atravessavam a paisagem, e incontáveis animais viviam em paz entre as árvores. Então a visão mudou. As florestas diminuíram. Os rios secaram. Os animais desapareceram. Fumaça e poeira cobriram a Terra.
“Toda ação”, disse o xamã, “tem consequências. Tudo o que vocês fazem à Terra retorna para vocês. Quem fere a natureza acaba ferindo a si mesmo.”
Meu coração ficou pesado. Pela primeira vez, compreendi o verdadeiro significado de suas palavras. A seca não era um castigo. Era a consequência das nossas ações. Pena Branca olhou para o horizonte, como se pudesse enxergar através do tempo e do espaço ao mesmo tempo.
“As pessoas frequentemente procuram a felicidade nos lugares errados”, continuou ele. “Acreditam que poder, posses ou fama preencherão suas vidas. Mas a verdadeira força nasce da compaixão, do respeito e da responsabilidade.”
Um vento quente soprou entre as árvores ressequidas.
“Nunca se esqueça”, disse ele, “de que cada ser humano faz parte de um todo maior. Nenhuma folha se move sem influenciar a floresta. Nenhuma gota d'água existe independentemente do rio. E ninguém vive sem ligação com os seus semelhantes.”
Suas palavras tocaram profundamente meu coração. Senti que estava testemunhando uma verdade muito maior do que tudo o que eu havia compreendido até então.
“O que podemos fazer?”, perguntei baixinho.
Um sorriso sereno surgiu em seu rosto.
“Lembrem-se.”
“De quê?”
“De que vocês não governam a Terra. Vocês são seus guardiões.”
Essas palavras pareceram preencher o ar ao nosso redor. Permaneci em silêncio, ouvindo atentamente.
“Muitas pessoas acreditam que estão separadas umas das outras”, continuou ele. “Elas fazem distinções entre tribos, povos, religiões e cores de pele. Erguem fronteiras e muros – não apenas sobre a Terra, mas também em seus corações.”
Seu olhar tornou-se sério.
“Mas a alma não conhece fronteiras.”
Um arrepio percorreu minhas costas.
“Todo ser humano carrega dentro de si o mesmo anseio. Todos procuram amor, paz, segurança e um sentido para a vida. As diferenças nas quais vocês se concentram tão frequentemente são pequenas. Aquilo que os une é infinitamente maior.”
Pensei nas guerras do nosso povo. Nos muitos homens, mulheres e crianças que haviam perdido a vida. Nas inimizades transmitidas de geração em geração. De repente, tudo aquilo me pareceu sem sentido.
“Por que as pessoas não conseguem perceber isso?”, perguntei.
Pena Branca sorriu com tristeza.
“Porque o medo obscurece sua visão.”
“Medo?”
“Sim. O medo de não ter o suficiente. O medo de perder alguma coisa. O medo do desconhecido. Muitas pessoas tomam decisões não por amor, mas por medo. E o medo cria separação.”
“Dentro de cada ser humano vivem dois lobos”, continuou Pena Branca. “O lobo negro alimenta-se de medo, ódio, inveja, ganância, ira e desconfiança. O lobo branco vive de amor, compaixão, esperança, confiança, perdão e paz. Ambos lutam dentro de você, dia após dia.” Olhei para ele em silêncio. “E qual dos lobos vence?”, perguntei. Pena Branca olhou-me seriamente. “Aquele que você alimenta.”
Suas palavras tocaram-me profundamente.
“Mas o amor cria união.”
Por um instante, o mundo pareceu ficar completamente imóvel. Até o vento parou.
“Quando as pessoas começam a tratar umas às outras com compaixão, tudo muda”, disse o xamã. “Os conflitos perdem sua força. O ódio começa a desaparecer. Inimigos podem tornar-se amigos.”
Senti algo se libertar dentro de mim. Algo que eu carregava havia muito tempo.
“A maior força de um ser humano não está em suas armas”, continuou Pena Branca. “Nem em seus bens, nem em sua posição. A maior força está em seu coração.”
Uma luz calorosa parecia irradiar de sua figura.
“Quem aprende a abrir o próprio coração descobrirá que dar nunca significa perder. A compaixão não enfraquece. O perdão não significa aceitar a injustiça. E a bondade não é sinal de ingenuidade.”
Ele fez uma breve pausa.
“São as forças mais poderosas de que um ser humano dispõe.”
Refleti sobre suas palavras. Como o mundo seria diferente se todos vivessem de acordo com elas.
“E quanto ao futuro?”, perguntei finalmente.
O xamã olhou para o céu.
“O futuro nasce a cada instante.”
“Nosso povo ainda pode ser salvo?”
Pena Branca assentiu.
“Qualquer pessoa pode escolher um novo caminho a qualquer momento. Nunca é tarde para viver de forma mais consciente, agir com mais atenção e assumir responsabilidades.”
Então olhou diretamente para mim.
“A mudança raramente começa com muitas pessoas ao mesmo tempo.”
Seus olhos brilhavam.
“Ela costuma começar com uma única pessoa que tem coragem de agir de maneira diferente.”
Fiquei sem fôlego. Aos poucos, comecei a compreender. Ele não falava apenas sobre o nosso povo. Falava sobre mim.
Epílogo
Muitos anos se passaram desde aquele verão. A história de Pena Branca continua sendo contada ao redor da fogueira. Alguns a consideram uma lenda, outros uma história verdadeira. Mas isso não importa. A verdade mais importante desta história não está em saber se realmente encontrei o espírito de um xamã. Ela está na compreensão de que todo ser humano possui a capacidade de deixar o mundo um pouco melhor do que o encontrou. Cada decisão conta. Cada palavra. Cada ação. Cada instante. Todos fazemos parte de um grande todo, e aquilo que oferecemos ao mundo retorna para nós, cedo ou tarde. É exatamente nisso que reside a sabedoria do xamã.